MÚSICA
JOÃO FÊNIX EVOLUI NA DANÇA DOS SIGNOS DE RESISTÊNCIA QUE POLITIZAM SHOW DEDICADO A JEAN WYLLYS
  • JOÃO FÊNIX EVOLUI NA DANÇA DOS SIGNOS DE RESISTÊNCIA QUE POLITIZAM SHOW DEDICADO A JEAN WYLLYS

Derivado do melhor álbum de Fênix, Minha boca não tem nome (2018), o recém-estreado show do artista também se impõe como o momento áureo nos palcos deste cantor que ganhou projeção fora do Recife (PE) natal a partir dos anos 1990 ao chamar atenção pela voz rara no musical de teatro Os quatro carreirinhas (1996).

Produzido sob direção artística de André Brasileiro, o show Minha boca não tem nome é explicitamente político. Tanto que o arremate tocante do bis é feito com saudação ao político baiano Jean Wyllys – a quem o show é dedicado – em Falou, amizade (Caetano Veloso, 1988).

A música evolui quase na cadência do samba para defender um país plural enquanto são projetadas no telão imagens de Wyllys, deputado federal que renunciou ao mandato em janeiro e partiu para o exílio voluntário por estar sendo ameaçado de morte.

Além de oportuna, a homenagem faz sentido porque foi por sugestão de Wyllys, de quem Fênix é amigo, que o cantor incluiu no álbum Minha boca não tem nome a música Falou, amizade, composta por Caetano Veloso em 1987 para o filme Dedé Mamata, lançada em disco em 1988, registrada por Simone neste mesmo ano e desde então nunca mais regravada até Fênix revivê-la após 30 anos.

No fim do show, antes do bis, outro momento arrepiante reforça o viés ideológico de esquerda que pauta Minha boca não tem nome. Com a linguagem do rock, Fênix enfatiza o verso "Ninguém solta a mão de ninguém" – repetido intencionalmente na letra indignada de Acima de tudo (2019), composição inédita que confirma Juliano de Holanda como um dos compositores mais relevantes de Pernambuco na atualidade.

Nesse número, Fênix desceu para a plateia do Teatro de Santa Isabel, palco histórico da estreia nacional do show, repetindo o verso que reproduz a frase do desenho de Thereza Nardelli viralizado na redes sociais no dia da eleição que tornou Jair Bolsonaro o 38º presidente do Brasil.

Emocionada, a plateia se deu as mãos e corroborou o êxito do show em que Fênix evolui na dança dos signos de resistência que politizam o espetáculo orquestrado sob direção musical de Guilherme Kastrup (bateria) e Jaime Alem (violão), integrantes da irretocável banda formada também por Alberto Continentino (baixo) e Dustan Gallas (guitarra e teclados).

Em sintonia com o viés político do show, a plateia já aplaudira em cena aberta a interpretação de Roda morta (Sérgio Sampaio e Sérgio Natureza, 1994 / 2006) entre projeções de imagens de protestos populares dos anos 1960 e 1970.

O show Minha boca não tem nome chegou à cena na última quinta-feira, 31 de janeiro de 2019, no Recife (PE), cidade natal do artista, devendo aportar no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP) entre abril e maio.

Em que pesem as tensões naturais de uma estreia, perceptíveis sobretudo na frieza dos primeiros números, o show já estreou com o conceito musical e ideológico bem afinado. Do ponto de vista musical, é preciso somente preencher, com sons, alguns buracos entre uma música e outra.

Como o show tem números de dança que sincronizam os movimentos de Fênix com os passos de dois bailarinos, ficou também evidente a falta de fôlego do cantor após as coreografias envolventes de Meu elemento (É de balé) (Moreno Veloso e Igor de Carvalho, 2018).

São detalhes fáceis de serem ajustados na longa estrada que merece ter esse show que, já de cara, toma partido da diversidade ao expor imagens de várias bocas na música-título Minha boca não tem nome (Juliano de Holanda e Tibério Azul, 2018).

Intérprete com bom conhecimento do repertório da MPB, como mostra ao dominar a Língua do P (Gilberto Gil, 1970) com vivacidade nordestina acentuada em Exercício diário da paixão (Carlos Posada, 2013), Fênix surpreende ao dar voz a uma das canções mais bonitas do repertório da cantora Joanna, Chama (1981), composição de autoria dos pernambucanos Geraldo Amaral e Aristides Guimarães que celebra a voz e a alegria de cantar sobre todas as coisas.

Há diversidade de climas no show. Se pás, sou mais (César Lacerda, 2018) entra em cena sobre o peso de rock heavy que contrasta com a delicadeza folk da canção Al final de este viaje en la vida (1978), sopro de esperança que vislumbra o futuro numa dimensão mais libertária, ainda distante, mas possível.

A lembrança da composição do cubano Silvio Rodríguez, lançada há 40 anos na voz do autor, refina e reafirma o recado de resistência dado por Fênix no show Minha boca não tem nome.

Parafraseando os versos poéticos de Rodríguez na iluminada canção, João Fênix segue firme no bloco dos "únicos que podem sorrir, no meio da morte, em plena luz" com este show sintonizado com os nobres ideais de liberdade. 

04/02/2019/ 11:26:50
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